Sobre o 3º culto: dormindo Domingo sem sermão pronto
3º culto: Igreja Metodista
Rio de Janeiro, 20 de Janeiro de 2008
Prezado irmão K-fé,
Neste domingo de verão no Rio de Janeiro, continuando minha missão, aportei em uma Igreja Metodista na zona norte desta cidade. A atividade iniciou às 19 horas e era um dia especial de gratidão pelos seminaristas que “passaram de ano” em 2007. Isto é, incluía seminaristas que tinham concluído qualquer fase de estudos em 2007. Ao dirigir-me ao salão de adoração, recebi um encarte com a programação da noite. Sentei-me como de costume no último banco, e logo duas visitantes se postaram ao meu lado. Havia no recinto umas duzentas pessoas.
Houve um prelúdio. Uma regente começou a puxar o cântico: “Libertador, filho do Homem Deus” e em todos os louvores a letra da canção foi projetada ou estava presente no programa impresso.
Os formandos entraram um a um, e se postaram lá na frente. Foi cantado um hino do hinário metodista intitulado “Ao Deus Supremo “. Um grupo de senhoras em trajes uniforme começou a dançar coreagraficamente ao som de um cântico da moda muito tocado em nossas FM neopentecostais. ( Eu, Xexéu, tenho dificuldade de me concentrar neste tipo de “mensagem”) Todas as atividades musicais terminavam com as palmas do auditório.
Após, foi feita a leitura responsiva baseada no Livro de Provérbios, intercalando o dirigente, congregação e formandos. Também tivemos um momento de confissão e arrependimento, seguido do culto da oferta.
Os visitantes foram convidados a ficarem em pé e duas senhoras com um microfone sem fio, iam em suas direções, identificando-os nominalmente e perguntando se eram membros de alguma igreja evangélica. Quando chegou a minha vez, convidaram o marido de uma delas para saudar-me; e não é que o rapaz me identificou pela minha atuação profissional?!
Novamente entoamos louvores. Desta feita cantamos: “A marca de Cristo”, “Unção de ousadia” e “Deus é bom demais”. Finalmente após 1h e 15m ao Evangelista Pedro Paulo foi dada a oportunidade de trazer a reflexão da noite. Ao assumir o púlpito relatou que orou a semana inteira pedindo uma palavra a Deus para aquela noite, e que durante toda a semana não teve inspiração do alto. Já estava propenso a pedir outro que assumisse o seu lugar, mas que na tarde deste domingo após dormir de 14h às 16h, acordou e Deus colocou em seu interior a inspiração. Baseou seu sermão na “Oração de Jabes” registrada no livro de I Crônicas 4:8 “Jabes foi mais ilustre do que seus irmãos.” Pediu aos irmãos que relatassem o que entediam ser o significado desta expressão na Bíblia. Após ouvir a congregação, deu a sua interpretação pessoal e desafiou-nos a sermos ilustres na vida. Esta reunião teve a duração de 2 horas e 3 minutos. No final, toda a igreja cantou a “Bênção apostólica” e fomos despedidos. Na porta fui saudado pelos pastores, que me convidaram retornar outras vezes.
Um abraço,
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Irmão Xexéu
PS: Por que os pastores pregam com uma entonação tão diferente da sua fala normal? Este de hoje não falava, berrava. Será uma técnica de oratória? Eles aprendem isto nos Seminários? Se alguém puder me responder, agradeço.
Atenciosamente,
Irmão Xexéu
Sobre o 2º culto: núcleo evangelístico?
Caro irmão Xexéu,
Foi interessante sua visita ao Núcleo Evangelístico. Estou pensando no “evangelismo” feito pela igreja. Jesus disse “ide, fazei discípulos” aos discípulos (Mateus 28.19). E Jesus disse “vinde a mim” (Mateus 11.28). Mas parece que as igrejas às vezes não vão e gostam de promover o “vinde à igreja”. Talvez tenha sido por isso que eles tão euforicamente bateram palmas ao saber que um visitante tinha conseguido achá-los ali. Aliás, que constrangimento! Depois de você tomar a iniciativa de sair de casa pra entrar num recinto completamente estranho, de estar rodeado de estranhos sem saber ao certo o que acreditavam ainda te mandam ficar de pé pra ser ovado. Como é que se sentiu sendo um estranho entre estranhos? Espero que não tenha sido muito traumático. Mas mesmo que eles tenham a estratégia de se esconder e apostar que os visitantes vão achá-los ali, por que será que tentam afugentar as pessoas com um volume de som tão alto? Será que querem mesmo atrair pessoas? De repente é uma prova de fé. Poderia ser complementada com andar em brasas ou pegar serpentes por exemplo.
Ainda sobre o fato de o núcleo ser evangelístico, me surpreende eles não terem aberto os evangelhos. Nem citado nenhuma história de Jesus. Nem parábolas. Nem deram boas notícias (“evangelho” quer dizer “boas notícias”).
Eu estive pensando a respeito dos tais gafanhotos do Joel. Não sei se interpreto isto literal ou metaforicamente. Se for real, parece que o Joel está ficando meio famoso no Rio de Janeiro. Seus gafanhotos talvez sejam geneticamente modificados para comer dinheiro de crentes. Se esse for o caso não sei se vale à pena me tornar crente. Conforme dizem, ao mesmo tempo em que as comportas dos céus vão se abrir e eu vou ganhar mais “bênção” (entenda-se, dinheiro), esses tais gafanhotos do Joel parecem viver comendo o dinheiro dos fiéis. De repente fica elas por elas: ganho X reais de bênção, mas o gafanhoto como X reais. Se a referida restituição for algo real não seria questão de abrir um processo de classe coletivo contra o Joel? Contudo, se eu for interpretar metaforicamente acho que esse assunto não me interessaria tanto, porque uma restituição metafórica seria por assim dizer “de mentirinha”. Ninguém tá nesse jogo pra perder. No final das contas, pra que serve ser crente se a gente não levar vantagem, né mesmo?
Falando em Malaquias 3, a Bíblia aqui de casa tem no mesmo capítulo no versículo 5 o seguinte: “O SENHOR Todo-Poderoso diz ao seu povo: — Eu virei julgá-los. E darei sem demora o meu testemunho contra todos os que não me respeitam, isto é, os feiticeiros, os adúlteros, os que juram falso, os que exploram os trabalhadores e os que negam os direitos das viúvas, dos órfãos e dos estrangeiros que vivem com vocês.”
Interessante que eu nunca ouvi uma pregação mencionando este versículo. Muito menos explicando-o.
Acho que o pastor estava dando uma indireta pra você fazer uma oferta alta. Porque ele ficou 10 minutos falando sobre a importância de “ofertar”. Você não ficou constrangido uma segunda vez? Pô, acho que você deveria ter pago pelo menos os R$ 5,00 do cover artístico, já que a entrada era sem consumação.
Sobre a música alta, me lembrou das técnicas de tortura dos americanos aplicadas nos prisioneiros de Guantánamo. Música alta e ficar na mesma posição por longos períodos são algumas das técnicas utilizadas pelos americanos, sendo condenadas pelas convenções de Genebra. Me lembro também do filme baseado no livro “1984” de George Orwell. Winston é torturado de várias formas. O’Brien aplica o Duplipensar (duplicidade de pensamentos, sabendo-se que está errado e se convencer que está certo) junto com a administração de dor. Winston chega a dizer que quatro dedos são realmente cinco. O fato de repetirem as músicas como io-iô também pode ser considerado como uma técnica de lavagem cerebral. A pessoa repente tanto uma frase que internaliza a coisa e passa a se tornar verdade. Com certeza é bem mais fácil incutir ensinamentos assim do que visar uma comunidade com uma boa teologia ortoprática.
A respeito do sonho do pastor de um tsunami ameaçando os membros da igreja, segundo a Folha de São Paulo de 9 de Janeiro de 2005 a probabilidade de um tsunami no Brasil é quase zero. O que não me soa bem é o pastor desenhar uma imagem de medo para as pessoas à toa para depois desmanchar o medo. Interessante que a luz do céu veio na direção dele. Ele deve ser mesmo especial.
Finalmente, parabenizo-o por conseguir agüentar duas horas no culto. Sei que foi difícil, como disse. Não sei como alocaram os acontecimentos ao longo do culto. De qualquer forma parece que foram acontecimentos esparsos ao longo das longas duas horas. Parabéns.
assinado: irmão K-fé
Sobre o 2º culto: missão é missão!
Irmão Xexéu,
A sua experiência ao visitar mais uma de “nossas agências” deve ter sido penosa mesmo, já que lá pelas tantas o senhor até queria se retirar do recinto. Admiro sua missão. Como falou, o senhor é um missionário, talvez não ordenado ordinariamente, com aquela empáfia toda, mãos sobre a cabeça, etc, mas é um missionário altruísta, humilde e recatado. Altuísta, pois deixa sua casa, sua família, seu conforto para ir ao encalce de tão bizarra experiência. Humilde, pois, analisando seus relatórios, vejo que é um homem informado. Seu Português e suas considerações demonstram cabal conhecimnento da língua portuguesa, mas, nem por isso, se deixa abater ao ouvir tanta palha. Recatado, pois senta-se, como disse, na última fileira de bancos. Também não dá relatórios fantasiosos, como algumas vezes a gente ouve de outros missionários, que, na empolgação da fala, acrescentam um conto ao conto. É realista, exato e detalhista.
Quanto ao problema do som em alto volume, sugiro que compre um tampão de ouvidos.
Não sei se K-fé vai aprovar, mas poderíamos dar alguma contribuição para a sua gasolina ou ao seu sapato. Fica, então, o apelo para que outras pessoas se engajem nessa “missão’ sustentadora das “cordas”, enquanto nosso missionário prossegue em sua missão.
Irmã K-neca
2º culto: Núcleo Evangelístico da Assembléia de Deus
Rio de Janeiro, 13 de janeiro de 2008.
Prezado irmão K-fé,
Novamente tive a oportunidade de visitar uma nova igreja. Desta feita, estive no Núcleo Evangelístico da Assembléia de Deus da ****, situada no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Ao me dirigir ao salão de culto, recebi boas-vindas do introdutor. Como de costume sentei-me no último banco próximo a duas senhoras que me saudaram com a “Paz do Senhor”.
Era pouco mais das 19 horas, e começou o “louvor”. Não consegui distinguir o que cantavam pois o baterista estava num dia de mão pesada, o local era pequeno, e não havia nenhum tipo de projeção ou papel com a letra dos cânticos. Havia no recinto cerca de 19 a 23 pessoas, contando com o pastor e seu auxiliar junto ao púlpito. Apesar de haver relativamente poucas pessoas, eles ainda tinham amplificação com várias caixas de som.
De repente o introdutor-mor me abordou perguntando se eu era membro de alguma igreja. Respondi que fazia parte de uma igreja cristã próximo a região e que estava visitando algumas igrejas. Anotou meu nome num pedaço de papel. Após o louvor, o dirigente informou a minha visita, pediu para eu ficar em pé e fui aplaudido por toda grei.
Houve a leitura bíblica de Romanos 8:31-39 e logo a seguir anunciou-se a programação da semana. Foi muito destacada a continuação da campanha da “restituição” com a presença do Irmão Jean. Pelo que entendi a campanha da restituição era para estimular os crentes a ter a restituição daquilo que o gafanhoto do livro de Joel consumiu.
Logo após, houve o culto da oferta quando todos os presentes receberam um envelope branco com os dizeres: “oferta de amor” e Malaquias 3:10. O pastor aproveitou a oportunidade e falou cerca de 10 minutos sobre a fidelidade e a importância de se ofertar.
Novamente, outro período de “louvor” e então o baterista passou a baqueta para a sua irmã e se apossou da guitarra. Não é que o problema de altura de som continuou? Com muito esforço consegui identificar um cântico “Eu vejo a glória do Senhor hoje aqui, vou louvando e sinto o Senhor me tocar” Neste instante minha vontade era de me encaminhar lá pra fora, mas confesso que resisti. Missão é missão! Sou um missionário!
O pastor contou do sonho que teve. Neste sonho, estava numa praia junto da família e com alguns membros da igreja, quando começou a se formar uma onda gigante tipo “tsunami”. Então após um momento de apreensão em que sentiu que todos seriam tragados, fechou os olhos e quando abriu viu uma forte luz dos altos céus na sua direção e quando se deu por si, a onda se desfez e o mar se acalmou. A congregação começou a gritar “Glória a Deus” , “Aleluia”!… Aproveitou o momento e falou da importância de estar protegido por Deus. Então pediu a todos que cantassem o cântico: “Jesus” e então orientou que os instrumentistas tocassem bem suave. Emendaram com “Só tua graça me basta” que foi entoado como um io-iô, indo e voltando sem fim.
Foi chamada ao púlpito para pregar a esposa do pastor como a “mensageira da noite”. As irmãs do banco da frente me ofereceram uma bíblia para acompanhar a leitura do Salmo 121. Falou bem simples e objetivamente sobre o cuidado de Deus para conosco.
Cantaram a bênção apostólica e após duas horas, fomos despedidos.
Saí, sem ser notado.
Sem mais, despeço-me, com um grande abraço.
Sobre o 1° culto na Igreja Internacional da Graça de Deus
Caro irmão Xexéu,
Achei estranhas as práticas desta congregação da Igreja Internacional da Graça de Deus que você visitou. Trigo e outros artefatos até poderiam de certa forma introduzir arte no ambiente, enriquecendo o culto. Mas esse não foi o caso. Parece que atribuem certos poderes mágicos aos objetos. Isso me lembra a luta da Reforma Protestante contra as indulgências da Igreja Católica. As indulgências eram não só um meio de a igreja tirar dinheiro das pessoas, mas também um meio de “desviar” a fé pessoal no Criador para os objetos. Apelando para a superstição das pessoas, esses objetos propõem uma fé fácil e, em última instância, falsa. Como disse Jesus a Tomé, ” Porque me viste, creste? Felizes os que não viram e creram” (João 20:29).
Sobre a veste sacerdotal dos pastores, achei isso também estranho. A Reforma Protestante foi a favor do sacerdócio universal e do relacionamento direto entre o crente e Deus. Como diz 1 Timóteo 2:5, ” Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”. E todos nós sabemos que no dia de hoje a imagem fala muito (o marketing é a alma do negócio!). As roupas são um símbolo. As roupas falam que os pastores são especiais, crentes ‘mais crentes’ e ‘mais santos’ que os crentes comuns. Isto é lastimável. Principalmente em tempos de tanta desigualdade social no Brasil. As pessoas não precisam de imagens de super-heróis. Precisam ser relembradas da imagem de Jesus lavando os pés dos discípulos (João 13). Precisam ler passagens como a de Mateus 20:25-27:
“Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles. ão será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; “
É estranho este “evangelho da prosperidade” que deixa de lado estas histórias de Jesus.
Irmão Xexéu, espero que tenha mais sorte na próxima igreja.
Um abraço,
K-fé
1° culto: Igreja Internacional da Graça de Deus
Querido irmão K-fé,
Hoje, dia 16/12/2007, participei do meu 1° culto. Foi na Igreja Internacional da Graça de Deus em um bairro aqui no Rio de Janeiro. Logo que entrei o introdutor me perguntou se eu havia trazido trigo. Ao ouvir a minha negativa, untou a palma da minha mão com ungüento. Durante o culto sentei-me bem atrás e as pessoas só me cumprimentaram em uma hora em que o pastor pediu para que desse um abraço na pessoa ao lado. Era uma ocasião especial, tinha uma tenda (tabernáculo) armada no local do púlpito, e hoje era o dia em que os fiéis iam ao passar pela tenda deixando sua oferta e pedidos, iriam ver o sobrenatural de Deus em suas vidas. O grupo de ¨louvor¨ ficou ininterruptamente lá na frente com um volume desesperador que parece fazer parte do clima. Então dois pastores se apossaram do microfone e começaram a comandar a liturgia. O detalhe é que vestiam uma roupa “SACERDOTAL”, bem parecida com alguns apetrechos que o PAPA usa. Deve ter alguma associação com a tenda montada na frente da igreja, batizada pelos líderes de Tabernáculo. Aqui estão algumas pérolas da pregação:
“
Se você é de Deus você tem que cobrar de quem? (Igreja: de Deus)
Se eu sirvo ao Exu eu tenho que cobrar de quem? (Igreja: de Exu)
Se eu sirvo à Pomba Gira tenho que cobrar de quem? (Igreja: dela)
Se eu sirvo ao santo tal tenho que cobrar de quem? (igreja: do santo tal)
Se eu sirvo ao Deus de Israel eu tenho que cobrar de quem? (igreja: do Deus de Israel)
Então ele vai mudar a tua vida e a minha.”
Na ocasião tinham vários obreiros, um para cada três bancos, perfazendo mais de vinte pessoas. Ao final do culto, cada pessoa que fez o seu voto recebeu um livro de Hagin (Pai da teologia da prosperidade), intitulado : “O Nome de Jesus”. Terminando, me dirigi à jovem ao meu lado e perguntei se tudo isso fazia parte da normalidade. Ela respondeu que hoje era um dia especial, em que os votos de 2008, junto com as ofertas, seriam levados à tenda afim de serem abençoados por Deus. Então me retirei e ninguém sentiu a minha falta.
Um abraço,
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Irmão Xexéu
(clique aqui para ouvir um trecho da música do culto. Na próxima página clique em ‘download’)
Relatos do irmão Xexéu: inauguração
Olá, pessoal. Neste blog estarei relatando minhas visitas às mais variadas igrejas. Começo no Rio de Janeiro. Funciona assim: no final de semana eu escolho uma igreja. Eu entro com um gravador no bolso e depois relato tudo o que aconteceu aqui.
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Irmão Xexéu